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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Um texto da Infância

Lidando com doces e bolos, tive um "insight" e lembrei-me de um texto lido em minha infância.
Na época achei-o hilário, imaginando toda a confusão descrita. Hoje, ao relê-lo, fiquei abismada. Nossa! Como aquela mulher conseguiu se enrolar tanto????
Independente da licença poética usada pelo escritor, pelo menos vale a dica de como não se deve fazer um bolo!

Leia e divirta-se. Afinal, não se deve levar tudo a ferro e a fogo, ou melhor, a ovos e farinha.
Bjs.

A RECEITA DE MINHA MULHER*
(Antonio Amurri)**

"Minha mulher faz os bolos mais deliciosos do mundo. Deixe-me lhe dar a receita.
Tome uma vasilha bem grande. Enxote o cachorro da cozinha. Remova os brinquedos de seu filho de cima da mesa. Unte bem a vasilha. Prepare as passas de uvas. Pese dois quilos de farinha. Diga ao garoto para tirar as mãos dela. Limpe a farinha que ele derramou no chão. Peça à vizinha do andar de cima que lhe empreste um pouco de farinha.
Peneire a farinha, e descubra, no armário, os minicarros que o seu filho tinha perdido na semana passada. Apanhe uma vasilha para bater os ovos. Peça a Roberta que apanhe os ovos na geladeira. Limpe os ovos que ela quebrou. Vá e apanhe os ovos você mesma. Diga ao caçula para atender o telefone. Vá e atenda você mesma. Passe um pano sobre o telefone que você sujou de farinha e besuntou de manteiga. Volte para a cozinha.
Tire as mãos de seu filho da vasilha que contém a farinha e os ovos. Lave as mãos dele. Peça a Roberta para atender a porta. Diga ao garoto para atender a porta. Vá você mesma. Limpe a maçaneta que você sujou com as mãos. Volte para a cozinha.



Use uma colher para tirar o sal que seu filho jogou dentro da vasilha. Tome o saleiro dele. Diga a Valentina para não dar comida ao cachorro, pois ele já lambeu os ovos e a farinha do chão. Pegue outros dois ovos e mais um saco de farinha. Diga ao garoto para não mexer nele. Dê-lhe uma palmada. Peça-lhe desculpas. Dê-lhe um prato cheio de farinha e um copo de leite, para que ele faça o seu próprio bolo, e que não fique enchendo você.
Unte bem a vasilha. Tire antes os minicarros de dentro dela. Considere a idéia de mandar o diabrete para um colégio interno. Unte outra vasilha. Corra atrás de Roberta. Obrigue-a a devolver as passas. Procure o fermento. Telefone à mercearia pedindo fermento. Limpe o telefone mais uma vez. Volte para a cozinha. Veja tudo espalhado, e o guri com a cara toda suja de farinha. Implore ao cachorro para comer as passas e lamber a bagunça toda.
Telefone para a confeitaria... e encomende um bolo já pronto!"


*publicado no português em Seleções, fevereiro/1974
** original publicado na revista "L'Europeo", em novembro /1972

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